quinta-feira, 20 de abril de 2017




Há uma luz que o vento extinguiu.

Há uma taberna que um bêbado deixa à meia-noite.

Há uma vinha queimada e negra com buracos cheios de aranhas.

Há um espaço que foi caiado com leite.

O louco morreu. Há uma ilha do mar do sul,

para receber o deus Sol. Rufam os tambores.

Os homens executam danças guerreiras.

As mulheres meneiam as ancas entre trepadeiras e flores de fogo,

quando canta o mar. Oh! o nosso paraíso perdido.

As ninfas abandonaram as florestas douradas.

O estranho vai a enterrar. Depois, cai uma chuva cintilante.

O filho de Pã aparece na figura de um trabalhador da terra,

que dorme ao meio dia sobre o asfalto escaldante.

Há pequenas meninas num pátio com vestidinhos cheios de uma pobreza de partir o coração!

Há quartos cheios de acordes e de sonatas.

Há sombras que se abraçam à frente de um espelho cego.

Às janelas do Hospital, aquecem-se convalescentes.

Um barco branco a vapor sobe o canal com pestes sangrentas.

A estranha irmã aparece de novo nos sonhos maus de alguém.

Sossegadamente, no bosque de sabugueiros, ela brinca com as suas estrelas.

O estudante, talvez um sósia, segue-a através da janela até desaparecer.

Atrás dele jaz o seu irmão morto, ou então ele desce a velha escada de caracol.

No escuro, as castanhas empalidecem o rosto de um jovem noviço.

O jardim está ao anoitecer. No cruzamento esvoaçam os morcegos em redor.

Os filhos do caseiro acabam de brincar e procuram o ouro do céu.

Acordes finais de um quarteto. A pequena cega corre a tremer pela alameda,

e mais tarde toca a sua sombra no muro frio, envolta por contos de fadas e lendas de santos.

Há um barco vazio que desce o canal negro ao anoitecer.

Na obscuridade do velho asilo decaem ruínas humanas.

Os órfãos mortos jazem nos muros do jardim.

De quartos cinzentos surgem anjos com asas sujas de lama.

Vermes saem das suas pálpebras amarelecidas.

A praça em frente da igreja é lúgubre e silenciosa, tal como nos dias da infância.

Sobre pegadas prateadas deslizam vidas passadas

E as sombras dos condenados descem até às águas pestilentas.

Na sua sepultura o mágico branco brinca com as suas cobras.

Silenciosamente sobre o calvário abrem-se os olhos dourados de Deus.



Georg Trakl
(tradução, inédita, de António de Castro Caeiro).

Sem comentários:

Enviar um comentário