segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

À MEMÓRIA DE RUY BELO


Provavelmente já te encontrarás à vontade
entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância
tomava sempre o comboio para as férias grandes,
já terás feito amigos, sem saudades dos dias
onde passaste quase anónimo e leve
como o vento da praia e a rapariga de Cambridge,
que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde.


A morte como a sede sempre te foi próxima,
sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso
ela aí estava, um pouco distraída, é certo,
mas estava, como estava o mar e a alegria
ou a chuva nos versos da tua juventude.


Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta
página de um jornal trazido pelo vento,
nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,
jornal onde em primeira página também vinha
a promoção de um militar a general,
ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:
isto de militares custa a distingui-los,
feitos em forma como os galos de Barcelos,
igualmente bravos, igualmente inúteis,
passeando de cu melancólico pelas ruas
a saudade e a sífilis do império,
e tão inimigos todos daquela festa
que em ti, em mim, e nas dunas principia.


Consola-me ao menos a ideia de te haverem
deixado em paz na morte; ninguém na assembleia
da república fingiu que te lera os versos,
ninguém, cheio de piedade por si próprio,
propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,
te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador,
qualquer coisa assim para estrumar os campos.
Eles não deram por ti, e a culpa é tua,
foste sempre discreto (até mesmo na morte),
não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro,
não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira,
e foste a enterrar numa aldeia que não sei
onde fica, mas seja onde for será a tua.


Agrada-me que tudo assim fosse, e agora
que começaste a fazer corpo com a terra
a única evidência é crescer para o sol.



Eugénio de Andrade

Django Reinhardt - Claire De Lune - Paris 16.04.1947

domingo, 26 de fevereiro de 2017


9ª resposta



A História de O


soletradas com este livro
foram suas maravilhas em apeadeiros
minhas claras em castelo
ao mar de Sesimbra
empoleirado num quadrado

louvava a pena de guido
crepax obra e eu sonhava ao selim
era perto

durante o dia demolíamos
e à noite ping-pong na garagem

os irmãos da rua 12 queriam festa

e vieram os Maias.




Nuno Moura


Ontem, casa muito cheia para a apresentação do meu S.A.
(fotos: Joana Azevedo).

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Stanley Crouch "After the Rain (John Coltrane)" Poetry Reading

Ernst Scheidegger parle d'Alberto Giacometti

Restaurante la Cueva, Sevilha


Onde comi um excelente rabo de boi e as melhores ameijoas da vida.

Les Jardins de Bagatelle, Bruxelas


Restaurante onde tive o prazer de comer, a convite da falecida amiga Helena Vaz da Silva.

Psychic TV - Dreams Less Sweet (full album) 1983

Às 18h, n'A Barraca


Conjugação invulgar: tuba e banjo: Taj Mahal, 1971

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Cateter?
Dióspiro?
Clítoris?
Úrano?

Vão-se lixar.

No Canal História


Visto hoje


"The Poseidon Adventure" (1972), de Ronald Neame e Irwin Allen.

Um dos meus quadros preferidos: Dois limões em férias, 1983, de António Dacosta





O TRABALHO DAS NOSSAS MÃOS


EU ERA NOVO E TU SIMULAVAS.
TARDES IMÓVEIS Â PORTA DO NOSSO MEDO NAS MAIS
DIFÍCEIS EM QUE TE
OCUPAVAS COM GESTOS E UMA INVENCÍVEL ENTREGA TE

FAZIA INVEJAR AS CHA-
MINÉS E OS SEUS FUMOS.
TU, O TEU SANGUE CRESPUSCULAR, DISSOLVIA O MEU
REMORSO DE TER NASCIDO E
DISSOLVIA O PEZ QUE OS OUTROS COLAVAM AO NOSSO
CORPO.
O TEU GESTO DE MOLHAR A LUZ NA TUA PELE DISFARÇAVA
COM CUIDADO QUAL-
QUER ASA DE PECADO.       
O NOSSO RECEIO NÃO ERA JÁ DAS CINZAS QUE NOS APOU-
CAM. A LIMPIDEZ DO CÉU,
TRABALHO DAS NOSSAS MÃOS, ENTREABRIRA-TE OS LÁBIOS
DOUTRA SEDE, PERMA-
NENTE COMO A CHUVA.

EU ERA NOVO E TU SIMULAVAS OS MEUS DEDOS DESFO-
LHANDO-SE.
PORQUE O NOSSO PESO ERA DE SÍMBOLOS, DECIDISTE
CRIAR OUTROS.
A DORMIR REFIZEMOS OS NOSSOS FRUTOS DE ALEGRIA E
NUNCA NINGUÉM NOS IM-
PORTUNOU COM TARJAS TRISTES À NOSSA PORTA. A VIVER
REFIZEMOS AS COISAS E
O SEU GUME, NA EVIDÊNCIA DO QUE EXISTE.
DESPIAS SORRIDENTE, DESLUMBRADA, AQUELE QUÊ DE
AUSENTE NA CARNE DAS
ESTÁTUAS, E NADA QUE NÃO FOSSE EXACTO TURBAVA OS
TEUS OLHOS. A TERRA
ABRIA-SE PARA A CHUVA ENQUANTO A SEMENTE DO DIA
ENTRAVA NO BICO DOS
PÁSSAROS. HAVIA UM GESTO DE ELEVAÇÃO.

EU SIMULAVA VER UM BARCO INCENDIADO, UM MAR DE
LIXÍVIA A ARDER E AS REN-
DAS DA NOITE CREPITANDO. OUVES AINDA O RUMOR DAS
ESTRELAS DE QUE, NOS
DECLIVES, DEPENDIAM NOSSOS PASSOS? UM PEDESTAL DE
ÓCIO SUSTINHA AS ES-
TÁTUAS DO VALE, INERTES DE DESTERRO, TODAS DE ROSTO
SEMELHANTE, EXISTIN-
DO DE AUSÊNCIA ERGUIDA.
NESSA HORA O LINHO QUE NOS COBRIA TINHA QUALQUER
COISA DE FEROZ E RECLA-
MAVA SANGUE.
O BRANCO ENSINOU-NOS A ESPADA. A ESPADA A CORAGEM
DE A SABER INÚTIL.
UM DIA DISSESTE A FITAR OS OLHOS DE IMENSAS COISAS -
QUE AO MENOS NOS
SALVEMOS NÓS! - DÓI-ME O CORPO DE ESPERAR...



ANTÓNIO DACOSTA



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017





Poesia às Quintas – com Miguel Martins – 224ª sessão – Bar a Barraca – 2 de Março – 22.30h – entrada grátis

MM, esse trangalhadanças trambalazana, lê uma salgalhada de poetas de bradar aos céus.
A saber: D.H. Lawrence (traduções de Maria de Lourdes Guimarães e Ricardo Marques), Franz Werfel, Ludwig Rubiner, August Stramm e Hans Magnus Enzensberger (traduções de João Barrento), Thomas Bernhard (tradução de José A. Palma Caetano), Zbigniew Herbert (tradução de Jorge Sousa Braga), Allen Ginsberg (tradução de José Palla e Carmo), Bruce Springsteen (tradução de João Lisboa), Sarah Kane (tradução de Pedro Marques), Mordechai Geldman (tradução de João Paulo Esteves da Silva) e Alexandre O’Neill (tradução de Alexandre O’Neill).

Quem não aparecer é porque acha que a harpa é um peixe de água doce. 



Ontem, n'A Barraca, perante uma audiência de 20 pessoas
(fotos: Joana Azevedo).

Pátria






Askoy-II le voilier de Jacques Brel - Documentaire



(Obrigado, Eunice.)
Nada arde tão depressa como o papel no céu,
onde das cinzas de uma folha renasce uma sequoia
e à sombra desta, quais cornucópias loucas,
mil arcanjos andróginos, anfíbios e ambidestros
dançam ao som da seiva que outrora foi poema
e agora é já aquilo que este desejava
quando era uma criança de mãos ensimesmadas
e acariciava do mundo o pelo hirsuto:
um mel voluptuoso com que adoçar o vinho
para reviver a história, que é tal e qual o mito
e que voa à deriva a caminho do ocaso,
a caminho da sala mais íntima do sonho,
onde somos o carro, a sirene e olhar
e tudo nos transporta sem sair do lugar.


Miguel Martins
23/02/17

O melhor amigo do tradutor: Bill Evans - From Left to Right (1970 Album)