domingo, 21 de agosto de 2016

Uma gota de suor escorre-me pela parede do esquecimento,
que – está bom de ver – é cinzenta e rugosa e cheira a mofo.

De tanto sublimar memórias, transformar em cintilação etérea
o concretíssimo brilho de uma cereja ao sol, essa parede
(que cega o caminho, e arranha, e fede) só existe por dentro
da estranha e jovial aparência das coisas com Norte e Sul
e Este e o lado mais aborrecido de tudo, que é o de olhá-las
com o progresso em frente.

                                            Pudéssemos regressar ao tempo
em que os poemas eram escritos sobre selas de couro e o amor
adormecia em grutas de pernoita, refrigério e juras de regresso.

Pudéssemos, ao menos, lembrar como quem com a mão direita
se entrega já às duas mãos de Deus, mas, um segundo mais,
demora a esquerda sobre a doçura do rosto mais amado.


Miguel Martins
21/08/16

If - Rudyard Kipling, read by Dennis Hopper on the Johnny Cash Show

Rainer Maria Rilke’s Poem by Dennis Hopper


Visto hoje


"Le Clan des Siciliens" (1969), de Henri Verneuil.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

6 X Françoise Dorléac







Visto hoje


"Billion Dollar Brain" (1967), de Ken Russell.

Presentinhos


TRADUÇÃO TERMINADA!!!



Mais 400 páginas.
As minhas ideias têm ideias próprias. Há muito
que é assim. Desde que perdi o coração, triturado
por uma máquina de fazer dias sem remorso
nem consideração pelas fragilidades que inventaram
o cristal e os versos. Tenho a língua coberta de musgo
e raiva, tenho uma moeda na algibeira e não telefono
nem ao Céu nem ao mar. Vou tendo mulheres
mas só dos olhos para fora. Sonho em matar
o tempo e caio para trás à beira do precipício
de todas as contingências. Como. Como-me.
Sozinho com as estrelas sem luz ou ainda tão distante
que só alumia o passado. Há-de haver um verbo
para isto. Desconheço-o. Desrecordo-o. Hoje
é dia de festa. Festa de São Miguel da Desorientação.
O Diabo mostra a sua cara no sono das crianças
e na falsa simplicidade dos frutos. As minhas ideias
impedem-me de estar presente. Logo hoje
que tanto queria dançar a vida numa malga de vinho.


Miguel Martins
18/08/16

Exactamente!: Paulo Leminski - Ervilha da Fantasia (1985)



(Obrigado, Changuito).