sábado, 21 de janeiro de 2017

Não há certezas sobre a origem da expressão tintim por tintim.

 Por exemplo, o Dicionário de Provérbios e Curiosidades de R. Magalhães Júnior (Editora Cultrix, São Paulo) aventa esta explicação:

«Tintim por tintim – É esta uma antiga locução portuguesa, cuja popularidade decorre sobretudo do fato de ter servido como título de uma revista teatral de Sousa Bastos, que alcançou extraordinário êxito em Portugal como no Brasil. Aqui foi dada pela primeira vez em agosto de 1892, e nela a atriz Pepa Ruiz obteve ruidoso sucesso, fazendo dezoito papéis.
     Foi depois reencenada uma infinidade de vezes. Mas a expressão era corrente havia já muito tempo, como demonstra João Ribeiro nas [suas] Frases Feitas ["Estudo Conjetural de locuções, provérbios, etc.", 2 vols., Rio, 1908-1909], citando textos de Filinto Elísio e de Malhão. Mais, ainda – está num clássico, Jorge Ferreira, autor de Aulegrafia: "Se vimos de estar à conta com ele e eu, há-me de pagar tintim por tintim."   

A interpretação de João Ribeiro é de que tim é o som que fazem as moedas. Por isso, o significado é o de pagar moeda a moeda.»

    Já o dicionário Houaiss regista esta outra possível hipótese na etimologia de tintim por tintim: «Há quem relacione ao inglês "pidgin" de Cantão (China) "tsing-tsing", saúde».

O mesmo dicionário regista inclusive a forma portuguesa antiga (1789) tentim por tentim.
   Correntemente, a locução adverbial tintim por tintim tem, como se atesta  em qualquer dicionário contemporâneo, o sentido de: «com pormenor e sem omitir nada», «com todas as minúcias e particularidades», «ponto por ponto», «minuciosamente» ("Vais contar-me a tua viagem tintim por tintim").


https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/qual-a-origem-de-tintim-por-tintim/14018
Tinha um homem a sair-lhe da boca. Não,
não o pénis, nada disso, um homem inteiro,
um homem de William Blake, meio Adamastor.
Era magra e loura e pálida, quase verde,
como uma espiga de trigo, e sofrera da vida,
e sofria da vida, hora a hora, todos os desmandos
de um recém-nascido abandonado ao vento,
como se estivesse posta a ferros mas no meio
do nada. Quase não tinha voz, quase não tinha
unhas, era um caco de um penico de loiça
na lixeira do mundo. Mas, nesse dia, fechou
o maxilar com mil ergs de força, decepou
o homem, e almoçou-lhe o corpo,
sepultando-o na mais desolada clareira da alma,
um areal oleoso, escondido por cordas, baldes,
e sapatos de náufragos. E, enquanto lhe digeria
o corpo, pegou num canivete, enferrujado
e rombo, e esculpiu-lhe a cabeça, tornando-a
um apito. Anda agora pelas ruas – ainda
e para sempre – mas apitando a melodia
estridente dos carris quando se aproximar,
a alta velocidade, o comboio justiceiro
que porá fim ao mundo. Tem nome,
chama-se Ana, e nunca saberá
que partilha esse nome com a avó do profeta.


Miguel Martins
22/01/17

7 X Eero Saarinen








Martin Kippenberger - Ja, Ja, Ja, Nee, Nee, Nee


3 X Beachy Head






Este pequeno quarto. Conheço-o tão bem!
Agora, arrendaram-no: este e o da porta ao lado.
São casas de negócio. A casa inteira
Foi engolida por escritórios,
Companhias limitadas e agências navais.
Ah! Como me é familiar este pequeno quarto!
Era aqui, ao pé da porta. Estava lá um sofá.
E antes um pequeno tapete turco.
Era exactamente aqui. Depois a estante com dois
Vasos amarelos. E à esquerda:
Não. Espera. Era de fronte: como o tempo passa!
Havia um armário tosco e um pequeno espelho.
E aqui mesmo no meio, havia uma mesa.
Costumavas sentar-te lá e escrever.
À sua volta havia cadeiras de cana
Como passa o tempo… E ao pé da janela, ali,
Estava a cama onde fazíamos amor tantas vezes
Algures, estas peças de mobília
Têm de se fazer sentir.
E ao pé da janela: sim:— aquela cama.
O sol da tarde inundou tudo pela metade.
Despedimo-nos só por uma semana. Naquela tarde.
Eu nunca poderia ter pensado que
Aqueles setes dias tivessem durado
Para sempre.


Kavafis
(tradução: António de Castro Caeiro)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Cheikh Tidiane Fall, Malachi Favors & Sunny Murray ‎– African Magic

Samuel Beckett Act Without Words I HIGH

Cartas pornográficas de James Joyce por Caco Ciocler

Obrigado, Maria!


Aquecimento central. E, súbito, as pálpebras fechadas
sobre um mundo de água, chilreio em que se juntam,
em justa proporção, a fé, um cor de laranja feroz,
e a cisão de todo o pensamento em estilhaços vivos
de carne sábia. Uma salamandra na voz. Palavras
sem nexo que são muitas terras e um olhar renascido
sobre todo o passado que arrojámos. Simplesmente:
um sentimento solar como um passo de dança
no tablao da alma. Agora, ouvimo-nos como quem lê.


Miguel Martins
19/01/17


Poesia às Quintas – com Miguel Martins – 219ª sessão – Bar a Barraca – 26 de Janeiro – 22.30h – entrada grátis

Cláudia R. Sampaio – poeta a quem Eugene O’Neill, Alexandre O’Neill e Shaquille O’Neil se referiram como “aquela ruivinha bués” – juntar-se-á, na próxima 5ª, a MM para uma leitura de poemas da sua (dela) lavra.

Quem não aparecer é groupie do David Carreira (e snoopy do Carlinhos Brown).


Ontem, n'A Barraca, perante uma audiência de 25 pessoas
(fotos: Joana Azevedo).